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Artigo da Yale sobre Desmatamento e Doenças Humanas
Desmatamento Ilha de Bornéu, Indonésia

Introdução

Um crescente corpo de provas científicas mostra que derrubada de florestas tropicais cria condições ideais para propagação de doenças transmitidas por mosquitos como malária e dengue. Primatas e outros animais também têm espalhado doenças de florestas derrubadas para pessoas.

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Como a Perda de Florestas está Levando a um Aumento de Doenças Humanas

Tradução autorizada para BetterGlobeTrees.com. Publicação original do artigo em Yale environment 360 em 23-FEV-2016. Autor: Jim Robbins.
PS! Autorização para republicação precisa ser obtida da fonte original. Para utilizar nossa tradução, é obrigatório o uso do texto "Traduzido por BetterGlobeTrees.com", incluindo o link e não pode ser republicado antes de Abril/2016.

Em Bornéu, uma ilha compartilhada pela Indonésia e Malásia, algumas das florestas tropicais mais antigas do mundo estão sendo cortadas e substituídas por plantações de óleo de palma a um ritmo vertiginoso. O extermínio de florestas ricas em biodiversidade da terra para plantações de monoculturas provoca vários problemas ambientais, desde a destruição do habitat da vida selvagem à rápida liberação de carbono armazenado, que contribui para o aquecimento global.

Mas o desmatamento tem um outro efeito preocupante: um aumento na propagação de doenças com risco de vida, tais como malária e dengue. Por uma série de razões ecológicas, a perda de floresta pode funcionar como uma incubadora para insetos transmissores e outras doenças infecciosas que afligem os seres humanos. O exemplo mais recente veio à tona este mês no Journal of Emerging Infectious Diseases (periódico de doenças infecciosas emergentes), com pesquisadores documentando um aumento acentuado dos casos de malária em humanos em uma região de Bornéu malaio que passa por um rápido desmatamento.

Essa forma da doença já foi encontrada principalmente em primatas chamados macacos, e cientistas da London School of Tropical Medicine and Hygiene (Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres) se perguntaram por que houve um aumento repentino nos casos humanos. Estudando mapas de satélite de onde a floresta estava sendo cortada e onde foi deixada de pé, os pesquisadores compararam essa mistura aos locais de recentes surtos de malária. Eles perceberam que os primatas estavam se concentrando nos fragmentos remanescentes do habitat da floresta, possivelmente aumentando a transmissão da doença entre suas próprias populações. Então, como seres humanos trabalham nas novas plantações de palmeiras, perto das bordas da floresta recentemente criada, mosquitos que se desenvolveram nesse novo habitat carregaram a doença dos macacos para as pessoas.

Floresta derrubada na Indonésia

Uma área de floresta na Indonésia que foi aberto caminho para uma plantação de óleo de palma. (Foto: CHAIDEER MAHYUDDIN/AFP/Getty Images)

Tais fenômenos não são incomuns. "Nos anos em que há muitas limpezas de terreno você vê um pico de casos de leptospirose [uma doença bacteriana potencialmente fatal], malária e dengue," diz Peter Daszak, presidente da Ecohealth Alliance, que é parte de um esforço global para entender e melhorar essas dinâmicas. "Desmatamento cria habitat ideal para algumas doenças."

O estudo da malária de Bornéu é a última parte de um crescente corpo de evidências científicas mostrando como o corte de grandes áreas de florestas é um fator importante em um problema grave de saúde humana — o surto de algumas das doenças infecciosas mais graves do mundo que emergem da vida selvagem e insetos nas florestas. Cerca de 60 por cento das doenças que afetam as pessoas passam parte do seu ciclo de vida em animais selvagens e domésticos.

O trabalho de pesquisa é urgente — o desenvolvimento de terra está acontecendo rapidamente em regiões com alto índice de biodiversidade, e quanto maior o número de espécies, maior o número de doenças, dizem os cientistas. Eles estão profundamente preocupados que a próxima pandemia global pudesse sair da floresta e se espalhar rapidamente por todo o mundo, como foi o caso com a SARS e Ebola, que ambas surgiram de animais selvagens.

Os mosquitos não são os únicos portadores de patógenos do meio selvagem para os seres humanos. Morcegos, primatas e até mesmo caracóis podem transmitir doenças, e a dinâmica de transmissão muda para todas essas espécies que acompanham o desmatamento da floresta, muitas vezes criando uma ameaça muito maior para as pessoas.

Ao longo da história humana patógenos surgiram das florestas. O vírus Zika, por exemplo, que se acredita estar causando microcefalia, ou cabeças menores do que as normais, em recém-nascidos na América Latina, surgiu da floresta Zika em Uganda na década de 1940. O risco de surtos de doenças pode ser muito ampliado após as florestas serem desmatadas para a agricultura e estradas. Dengue, Chikungunya, febre amarela, e alguns outros agentes patogênicos transmitidos por mosquitos provavelmente também saíram das florestas da África.

As florestas contêm numerosos agentes patogênicos que foram se alternando entre mosquitos e mamíferos durante os períodos da história. Porque eles evoluíram juntos, esses vírus muitas vezes causam poucos ou nenhum sintoma em seus hospedeiros, fornecendo "um efeito protetor de uma infecção hospedeira", diz Richard Pollack da T.H. Chan School Public Health de Harvard. Mas os seres humanos muitas vezes não têm essa proteção.

O que as pesquisas estão demonstrando é que por causa de uma complexa cadeia de mudanças ecológicas, o risco de surtos de doenças, especialmente as transmitidas por alguns mosquitos, podem ser muito ampliados após as florestas serem derrubadas para a agricultura e estradas.

Uma inundação de luz solar derramada no chão da floresta que antes era sombreado, por exemplo, aumenta as temperaturas da água, que podem ajudar a reprodução do mosquito, explicou Amy Vittor, uma professora assistente de medicina na Universidade da Flórida. Ela é uma especialista na ecologia do desmatamento e a malária, que é onde essa dinâmica é melhor compreendida.

Desmatamento cria outras condições propícias à reprodução do mosquito. Isso acontece uma vez que córregos e lagoas ricos em taninos desaparecem, o que reduz a acidez e torna a água mais turva, o que favorece a reprodução de algumas espécies de mosquito em detrimento de outros. O escoamento da água é represado, deliberadamente e inadvertidamente, e empoçado. Porque as águas já não são retomadas e transpiradas pelas árvores, os lençóis freáticos sobem mais perto do chão da floresta, o que pode criar mais áreas pantanosas.

Uma vez que a agricultura substitui a floresta, "o re-crescimento de vegetação de baixa altitude proporciona um ambiente muito mais adequado" para os mosquitos portadores do parasita da malária, diz Victor.

A ligação entre o desmatamento e o aumento da malária é conhecido há algum tempo, mas as pesquisas nas últimas duas décadas têm preenchido muitos dos detalhes. Grande parte do trabalho foi feito no Peru, onde, em uma região na década de 1990, os casos de malária passaram de 600 por ano para 120.000, logo após uma estrada ter sido construída na floresta virgem e as pessoas começarem a limpar a terra para agricultura.

A cascata de mudanças ecológicas induzidas pelo homem reduz drasticamente a diversidade de mosquitos. "As espécies que sobrevivem e se tornam dominantes, por razões que não são bem compreendidas, quase sempre transmitem a malária melhor do que as espécies que tinham sido mais abundantes nas florestas intactas," escrevem Eric Chivian e Aaron Bernstein, especialistas em saúde pública da Escola de Medicina de Harvard, em seu livro How Our Health Depends on Biodiversity [Como Nossa Saúde Depende da Biodiversidade]. "Isso tem sido observado essencialmente em todos os lugares que a malária se manifesta."

homem dorme dentro de um mosquiteiro

Um homem dorme dentro de um mosquiteiro em sua casa em West Papua, Indonésia. (Foto: Ulet Ifansasti/Getty Images)

Os mosquitos podem se adaptar rapidamente às mudanças ambientais. Em resposta a um impulso de usar mosquiteiros para evitar picadas noturnas em regiões propensas à malária no mundo, por exemplo, os pesquisadores estão vendo uma mudança no horário do dia que os mosquitos picam — muitos agora atingem sua presa humana nas horas antes de dormir.

Um estudo realizado por Vittor e outros descobriu que uma espécie de mosquitos portadores de malária, Anopheles darlingi, em uma área de floresta no Peru era radicalmente diferente do que seus primos em florestas intactas; o Anopheles darlingi em áreas desmatadas picou 278 vezes mais do que em uma floresta intacta, de acordo com um estudo publicado no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene em 2006.

"Na floresta, não encontramos quase reprodução nenhuma, e nenhuma picada pelos mosquitos adultos," disse Vittor. Provavelmente porque a ecologia da paisagem florestal — vegetação baixa e água profunda — favorece sua reprodução, e eles precisam de sangue humano para crescer seus ovos.

Os tipos de mosquitos que trabalham bem nesse ecossistema radicalmente alterado são mais "vetores competentes" o que significa que seus sistemas são particularmente bons na fabricação de uma grande parte do patógeno que causa a malária. Um estudo no Brasil, publicado no Journal of Emerging Infectious Diseases [periódico de doenças infecciosas emergentes] em 2010, descobriu que a derrubada de quatro por cento da floresta resultou em um aumento de quase 50 por cento dos casos de malária em humanos.

A ecologia dos vírus em áreas desmatadas é diferente. Uma vez que as florestas são cortadas, inúmeros novos limites, ou arestas, são criados entre áreas desmatadas e a floresta. Um mosquito chamado Aedes africanus, um hospedeiro da febre amarela e do vírus Chikungunya, muitas vezes vive neste habitat nas bordas e pica as pessoas que trabalham ou vivem nas proximidades. Outros primatas, que também são reservatórios para os agentes patogênicos, se reúnem nas fronteiras desses diferentes ecossistemas, proporcionando uma fonte contínua de vírus para os insetos.

Insetos não são a única maneira que o desmatamento pode exacerbar doenças infecciosas. Por alguma razão desconhecida, as espécies de caracóis que podem melhor se adaptar às áreas quentes abertas que surgem depois que uma floresta é cortada são melhores anfitriões para parasitas chamados platelmintos, alguns dos quais causam a esquistossomose, uma doença que danifica órgãos humanos.

Os cientistas estão preocupados que esses focos agravados pela alteração humana de paisagens poderiam causar a próxima pandemia. O Império Romano, uma vez se expandiu da Escócia para a África e durou mais de 400 anos. Ninguém sabe exatamente porquê o império ruiu, mas um fator que contribuiu pode ter sido a malária. Uma vala comum de bebês daquela época, escavada na década de 1990, descobriu, por meio de análise de DNA, que muitos deles morreram de malária, de acordo com um estudo publicado em 2001 no periódico Ancient Biomolecules. Alguns pesquisadores especulam que o surto de malária pode ter sido agravado pelo desmatamento de Roma em torno do Tiber River Valley para fornecer madeira para a cidade em crescimento.

Uma vez que uma doença tenha deixado uma região de floresta, ela pode viajar em seres humanos, cruzando o mundo em questão de horas por meio de aviões, antes mesmo da pessoa apresentar sintomas. Como ela se comporta em suas novas casas depende de vários fatores. Uma peça do quebra-cabeça é saber quais agentes patogênicos podem sair da floresta no futuro. Uma vez que o Zika viajou da África para o Brasil, por exemplo, ele se desenvolveu porque os mosquitos Aedes aegypti ficam em torno de pessoas e gostam de colocar seus ovos em pequenos recipientes de água. Muitas pessoas em grandes favelas do Brasil armazenam água em baldes e também acumulam água parada em lonas, pneus velhos, e lixo.

Uma questão-chave sobre o vírus Zika é se ele vai entrar nas populações de primatas na América do Sul, o que significa que ele pode se tornar um residente permanente e uma fonte contínua de infecção. "Será que vai se estabelecer lá?" questiona Vittor. "Nós não sabemos".

Os mosquitos não são as únicas criaturas que trazem febre para fora da floresta. Acreditou-se que morcegos angolanos sem cauda foram portadores do vírus Ebola que eclodiu e matou mais de 11.000 pessoas no ano passado. E a AIDS, que já matou mais de 25 milhões de pessoas em todo o mundo, veio de pessoas que comem carne de animais selvagens, chimpanzés provavelmente.

Um coringa nesse cenário de doenças é a rápida mudança climática. Se a primavera chega mais cedo, os mosquitos chocam mais cedo e as populações do verão são maiores. No sudeste da Ásia, o aumento das temperaturas durante os ciclos climáticos El Niño se correlaciona com surtos de dengue, porque o clima mais quente permite que mosquitos se reproduzam mais rapidamente e expandam sua população, que espalha o vírus ainda mais, de acordo com um estudo realizado no ano passado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Parte da solução é reconhecer e compreender essas conexões e ensinar às pessoas que manter a natureza intacta tem efeito protetor. E onde as pessoas derrubam florestas ou constroem estradas, podem ser tomadas várias medidas para diminuir a possibilidade de surtos de doenças transmitidas por mosquitos — campanhas educacionais, mais clínicas, formação em saúde e acompanhamento médico.

Outra peça do quebra-cabeça é saber quais agentes patogênicos o mundo poderia combater no futuro, assim que eles saem da floresta. A Ecohealth Alliance está catalogando vírus transmitidos pelos animais selvagens em lugares selvagens onde há uma nova invasão na natureza não violada e os cuidados de saúde são fracos ou inexistentes. O objetivo é entender melhor como esses vírus podem se espalhar e potencialmente desenvolver vacinas.

"Se pudéssemos lidar com o tráfico de vida selvagem e os desmatamentos não teríamos necessidade de parar um surto," como o Zika ou o Ebola, disse Daszak, o presidente da organização. "Nós já teríamos lidado com isso."

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